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21 de março de 2014

Nirvana

O que restou do Kurt...
      CANÇÃO DO VENTO E DA MINHA VIDA
"O vento varria as folhas,
O vento varria os frutos,

O vento varria as flores...

E a minha vida ficava

Cada vez mais cheia
De frutos, de flores, de folhas.
O vento varria as luzes,


O vento varria as músicas,

O vento varria os aromas...

E a minha vida ficava

Cada vez mais cheia
De aromas, de estrelas, de cânticos.
O vento varria os sonhos


E varria as amizades...

O vento varria as mulheres...

E a minha vida ficava

Cada vez mais cheia
De afetos e de mulheres.
O vento varria os meses


E varria os teus sorrisos...

O vento varria tudo!

E a minha vida ficava

Cada vez mais cheia
De tudo."

Manuel Bandeira

23 de agosto de 2012

E agora, José?


              E agora, José? 
              A festa acabou, 
              a luz apagou, 
              o povo sumiu, 
              a noite esfriou, 
              e agora, José? 
              e agora, você? 
              você que é sem nome, 
              que zomba dos outros, 
              você que faz versos, 
              que ama, protesta? 
              e agora, José?


              Está sem mulher, 
              está sem discurso, 
              está sem carinho, 
              já não pode beber, 
              já não pode fumar, 
              cuspir já não pode, 
              a noite esfriou, 
              o dia não veio, 
              o bonde não veio, 
              o riso não veio 
              não veio a utopia 
              e tudo acabou 
              e tudo fugiu 
              e tudo mofou, 
              e agora, José?


              E agora, José? 
              Sua doce palavra, 
              seu instante de febre, 
              sua gula e jejum, 
              sua biblioteca, 
              sua lavra de ouro, 
              seu terno de vidro, 
              sua incoerência, 
              seu ódio - e agora?


              Com a chave na mão 
              quer abrir a porta, 
              não existe porta; 
              quer morrer no mar, 
              mas o mar secou; 
              quer ir para Minas, 
              Minas não há mais. 
              José, e agora?


              Se você gritasse, 
              se você gemesse, 
              se você tocasse 
              a valsa vienense, 
              se você dormisse, 
              se você cansasse, 
              se você morresse... 
              Mas você não morre, 
              você é duro, José!


              Sozinho no escuro 
              qual bicho-do-mato, 
              sem teogonia, 
              sem parede nua 
              para se encostar, 
              sem cavalo preto 
              que fuja a galope, 
              você marcha, José! 
              José, para onde? 
                Carlos Drummond de Andrade

27 de julho de 2012

O nosso ego, sempre nos pregando peças...

E um dia os homens descobrirão que esses discos voadores estavam apenas estudando a vida dos insetos. 

Mario Quintana

2 de junho de 2012

O homem que virou notícia


Saiu do açougue em um dia normal, como tantos outros o são. Não esperava muito mais da vida do que a sua ração mensal de carne, seu maço de Mill diário e a    sua latinha depois do trabalho, pois também era filho de Deus. Já podia até sentir o bife duro dançando em sua boca, enquanto na TV o banquete era servido na novela das nove. Vinte reais por pouco mais de um quilo de carne vermelha e dura, enrolada em notícias de ontem de um jornal local. Não sabia ler, mas gostava das fotos. Elas encurtavam o longo trajeto percorrido a pé. Havia vendido a bicicleta para pagar a última prestação da geladeira e evitar a negativização do seu nome junto ao serasa. E seguiu caminhando distraído, até o momento em que o embrulho da carne começou a escorrer pelos dedos. Tentando limpar o sangue, levou um susto ao se deparar com uma foto um tanto quanto inusitada no pacote. Uma foto dele no jornal, exatamente no local por onde o sangue nascia. O jornal, a foto, o sangue. Nunca tinha saído foto sua em jornal algum, ou melhor, nunca aconteceu de se interessarem em tirar fotos dele. Absorto pelos acontecimentos, atravessou a avenida Higienópolis sem se importar com o mundo à sua volta, tentando processar a estranha ocorrência. Pensamento que foi interrompido pelo abraço do ônibus 307, que misturou tudo. Sangue e carne, do jornal e dele. Morreu sem saber que aquela era a edição de amanhã.  

Ilsson Siriani

1 de abril de 2008

PARTIDO ALTO


“Você pensa que é malandro,
marimbondo é muito mais,
ele morde com a bunda,
coisa que você não faz.”

Partido Alto (não gravado)*

* Este trecho de samba está presente no prefácio de Malvadeza Durão, livro de contos ou "ficções contadas", como Flávio Moreira da Costa previne em sua introdução, que tem como personagens principais a grande nata da malandragem brasileira na década de 70. Em sua dedicatória o autor agradece - aos velhos partideiros, sambistas da antiga, conhecidos e desconhecidos, malandros e valentes, que me ensinaram, mais do que qualquer autor, a maleabilidade, a criatividade da língua que falamos e que só raramente escrevemos.

Para quem ainda não entendeu a rima deixo a pergunta:
Já tentou passar a mão na bunda do marimbondo?