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14 de março de 2014

A página em branco

O desconforto é claro ao me deparar com esta página em branco. Depois de tanto tempo sem uma linha sequer, voltar a escrever é difícil e a minha cabeça ainda não ajuda. Precisarei de mais tempo até que toda a página seja preenchida, mesmo que hoje assunto não falte. Tem muita gente gritando nas ruas, querendo ser ouvida. 

Aqui ou do outro lado do mundo, as pessoas não se entendem e se matam, ali na Venezuela tem tantos morrendo e com que sentido? Faz sentido? Escrever não faz sentido, mas é preciso. Hércules teve 12 trabalhos, eu ando sem emprego algum. 

Café, internet e um pouco menos da vida a cada dia que passa. Escrever pode ser uma prisão às vezes, esconderijo fútil que me impede de enlouquecer. Se me passa pela cabeça matar alguém, não vou comprar uma arma, vou escrever uma história. Não entendam mal, não quero matar ninguém. 

É preciso preencher a página, transmitir todo o sentimento que se esvai pelos dedos para o teclado até o nascimento do texto. Não sou intelectual, não consigo viver em gaiolas, não nego que na maioria das vezes eu mesmo as crio. Mas a Copa do Mundo está aí, os ingressos quase todos vendidos, e você, viu o avião desaparecido? Às vezes é necessário ser texto, fazer sentido, não perder o juízo. É nessa parte que eu desisto.

7 de março de 2014

Mundo pequeno


Cabisbaixo, acompanhava atentamente a procissão de formigas desfilando pelo bolo de chocolate esquecido em cima da mesa. Assustou-se ao perceber que faziam vários dias que ninguém aparecia para saber das novidades sobre ele. Se sentiu sozinho, mesmo não reconhecendo a solidão naquele momento onde as formigas devoravam seus restos, vieram à cabeça memórias de uma tarde de sábado, não haviam formigas e tudo era diferente. Ele não sentiu ressentimento pelo atrevimento das danadas e nem tinha razão para tal. As malfeitoras eram a sua única companhia no momento. 

Mas não estava louco a ponto de abrir-se com elas ainda. E talvez elas nem entendessem o que é solidão. Formigas estão sempre em bando, comem, trabalham e morrem juntas. Sempre. Isso seria a verdadeira essência de uma sociedade que subjuga a personalidade pelo bem maior, o sistema? Ou seria apenas um exemplo de amizade ímpar? Bem, formigas são formigas, andam juntas. A inveja naquele momento quase surgiu, talvez por medo de se descobrir sozinho. 

O pensamento que o dominou foi qual seria a visão de mundo das formigas? Qual a visão que uma formiga tem de nós, os seres humanos? Será que para elas somos enormes Godzillas, somente esperando a hora de esmagá-las com nossos acessos de cólera, ou apenas os grandes deuses que emanam o alimento do céu, em forma de migalhas de biscoito água e sal? Depois, guardou a água na geladeira e foi ver televisão.

18 de outubro de 2013

Redes Sociais

Seguiam caminhando perfilados em fila indiana, acompanhando um corredor infinito de filósofos, perfilados pela calçada de tijolos amarelos, o ego, esse veneno corroendo as suas veias, perfilados e alucinando com todas as interpretações rasas a respeito dos dias e das coisas, perfilados pelo oráculo de carbono e fibra ótica, alimentando o banco de dados com falácias das mais variadas, perfilados, essa turba de entendidos em todos os assuntos do mundo e com resposta para tudo, perfilados na certeza de que a sua visão é a única, perfilados com o dedo apontado para o erro do filósofo seguinte, em fila indiana, até o fim.

4 de agosto de 2012

Tela Fixa

A revolução não passará na televisão.
Tentativas de descrever um sonho:

O computador agora é um pedaço de papel, memória descartável em meus esforços para parecer diferente, mas acabo parecendo igual a outra coisa. Sei pouco sobre isso, não tem muito tempo. 

Faz tempo que escrevo o óbvio. Não, queria descentralizar o meu pensamento, dizer Adeus e depois caminhar livre pelo novo estilo que vou inventar. Alinhando o foco, escrever parece bobagem às vezes. Eu não sei onde estava com a cabeça. Aonde está minha cabeça? Hoje, hoje não. 

O telefone, contas, família, minha angústia em parecer impotente e distante de toda a proteção do meu próprio território. A todo tempo essa sombra me persegue e me cobra, você tem que fazer isso, suprimir o seu ego, ser um número, apertar o botão, somente aquele botão, o soldo é bom, faça como eu, seja um infeliz, seja outra pessoa, será? 

Mas aqui, aqui seria uma boa história. Livre, dentro desta tela fixa. Preso, na tristeza indelével de ser o mínimo.

8 de junho de 2012

COMUNICADO

Mais rápido do que eu possa descrever, incondicional como a cortesia ao doente terminal, são os escombros que não nos saem de cima, fumaça e desastres em série, seja no canal pago ou na TV aberta.

Terrorismo, calafrios e seleções brasileiras com seus horríveis laterais que não acertam um cruzamento sequer, turnos de oito que horas acabam com a nossa vontade, viramos formiguinhas condicionadas ao esquema tático de um dos anões da Branca de neve ou de Brasília ou tanto faz.

Será que merecemos tanto? Nem sim nem não, talvez a resposta não esteja tão próxima, vamos ter é que aguardar o final da pesquisa. Precisamos conhecer a palavra que mais se encaixa ao contexto. No mínimo mais dez anos. Richards também estava trabalhando nisso, mas não sabe se vai terminar, anda com a pulga atrás da orelha. Viu no que deu ser o marido da mulher invisível?

Descuidos oportunos, jazz de miséria improvisada pelos políticos safados que fazem a gente acompanhar a bateria louca de impostos, intimações, desmandos e restrições, haja fôlego, hein, seus filhos de uma puta? Será que nunca vão sair de cima do nosso lombo?

Virem esse disco, seus porras! Eu tô querendo a minha parte e tem que ser agora seus merdas, não espero nem mais um dia. Senão eu vou até aí e acho vocês e meto o pé, está entendido? Vou dar um tiro no meio dos seus cus!

Vocês estão me ouvindo?

Atenciosamente,

Ilsson Siriani

21 de outubro de 2011

Tilt



(Originalmente em uma terça tilt de 2007)

Eu não perguntei quem vai pagar o vinho, perguntei o preço. Agora também vai me dizer que você não tem taças? E essa música, era mais fácil colocar no rádio, esse texto é só para desenferrujar as mãos para uma proposta maior. 

O Papa já chegou? Precisamos do desfibrilador neural agora, Pinky! Elencando as ideias, retornando aos fatos bem picados no liquidificador com dois dedos de vodca, jogando mãozinha no Pé na cova, dirigindo pela madrugada sem destino. 

No Cabeleirinho, três tigres tristes comendo cílios. Faróis, cervejas e Eric Clapton, Led Zeppelin e nenhuma televisão, graças a deus, ou não. Depois que o magnetizador estiver funcionando, todos os que tiverem uma simples moeda no bolso ficarão presos ao solo! 

Autofalantes e uma avalanche de risadas e escorregões, árvores dentro do apartamento, cervejas ao chão, apostas e desejos, cuidado! James Brown, mais vinho, muitas outras ligações. E se eles tirarem as calças, Cérebro? Será que o refluxo não vai parar, porque eu queria mesmo era contar uma história. Não sei se é romântica ou se ao menos já foi contada. 

Cale a boca, Pinky! Estou tentando pensar.

20 de agosto de 2011

Carta ao amigo que mora longe


Arial 12, espaço simples, justificado pelos estranhos sonhos loucos que eu tenho. Explosões de antimatéria, os animais falantes de sempre e eu aqui, sem fazer sentido algum, descrevendo a marmita requentada das últimas semanas. 

Se está lendo isso, com certeza não ganhei na loteria. Continuo procurando o pote de ouro. O que quero explicar é impossível de traduzir se você não estiver usando o aparelho que te faz entender o que os aliens estão dizendo. A vida não está pra malandro faz tempo, ficar esperto é o mínimo que eu posso fazer. Palavra de gente normal, atenta ao novo acordo ortográfico.

A margem de erros diminui com a experiência, a realidade iguala o resto, o que importa são os três pontos, mas um também não é mal, o time deles também perdeu. O preço da gasolina está cada vez mais alto, o pãozinho não é mais dez centavos, faz tempo que eu dou a minha cara a tapa. 

Eu esperava no mínimo a sua compreensão, porque agora são exatamente 19:05 e os alarmes do submarino alemão tocam pontualmente, bendita a hora em que emerge o meu controle outra vez.

2 de junho de 2008

Tempos Modernos

Estou trabalhando muito, apertando uns parafusos. 
Um dia o blog volta ao ritmo normal. 
Mentira.

20 de maio de 2008

Invasão!


Tudo começa com um pequeno surto, paranoia que pode surgir de barulhos desconhecidos e vai seguindo adiante. No semáforo, esperando um ladrão pular com uma arma na mão e me matar. Segue comigo até o trabalho, balançando a carta imaginária de demissão presa à cauda. O problema é que eles podem emular a aparência de qualquer pessoa, da mulher amada ao melhor amigo ou o seu cachorro. Não me sinto mais seguro em lugar nenhum, exceto quando estou só, como agora. Escrevo da minha fortaleza da solidão, onde esses Skrulls malditos não irão me alcançar. E ficarei por aqui, até que eu saiba em quem  possa confiar.

13 de maio de 2008

Desmantelar


Raramente protagonizaram cena tão sofrida, os dois fatigados pelos anos de convivência, finalmente vencidos, mas não poderíamos dizer que não havia mais amor ali. Cheios de aflições mútuas, ambos apresentavam diversas cicatrizes, marcas do que não foram ou do que poderiam ter sido, caso não houvessem preferido um outro caminho, que agora os colocava frente a frente, momentos antes da separação, ele com a mala pronta na porta do apartamento:

- Não dá mais, chega!
- Eu que o diga, meu caro. Acha que estou feliz assim, aguentando o seu destempero?
- Você é uma Santa? Como se apenas eu fosse o grande culpado de tudo, sempre! Cansei!
- Não te culpo por tudo. Na verdade só me culpo por ter me casado com você, maldita a hora!
- Culpa da tua mãe, que fez questão! Aquela vaca. Como eu fui burro!
- Pelo menos ela não é alcoólatra nem tem conta no bar!
- Estou indo embora, não quero mais olhar pra tua cara!
- Espera, não sai assim, está chovendo lá fora... Eu te amo, droga!

E ele disse que gostava dela como o diabo gostava do seu caldeirão, depois bateu a porta e partiu.

1 de maio de 2008

O que se salva


Frio e chuva, pés molhados, meias molhadas, tênis molhados e mais chuva! Roupa molhada, carro molhado, cachorro molhado, cabeça quente, sem guarda-chuvas. Muita coisa fria e molhada. Pessoas molhadas e frias. Só o que se salva são essas luzes atrevidas deslizando pelo asfalto, no espelho de água que se formou sem nenhuma permissão pela noite.

22 de abril de 2008

EU TENHO CERTEZA



Eu tenho certeza
Que deveria escrever mais
Que deveria comer mais coisas verdes
Que deveria parar de fumar
Que deveria ver menos televisão
Que deveria parar de escrever poesias medianas
Que deveria ser menos dramático
Que deveria brigar sem motivo na rua só para ver o sangue escorrer pelo canto da boca
Que deveria admirar mais o sol... Estou pálido da caverna
Que deveria visitar os amigos que moram longe, ou escrever-lhes dizendo:
"Eu não tenho certeza nenhuma"

21 de abril de 2008

Diálogos maravilhosos




02 Maio 2007
Feriado:

- Na verdade, eu até queria sair, mas tem alguma coisa me prendendo à cama e ao sofá, desde as 5 da tarde...

- Inércia...

- Hum...

- Um corpo em repouso tende a permanecer em repouso até que uma força igual ou maior seja aplicada sobre ele...

- Vou ter que procurar uma força igual ou maior do que a minha?

- Segundo
Newton sim...

- Newton não sabe de nada!

- Nem eu...

- Ainda bem!

19 de abril de 2008

O amor foi retirado do cardápio



(28 Maio 2007)
O amor foi retirado do cardápio. Porque não vende, camarada. Olha a minha situação: Quando comecei o negócio, acreditava nele uma grande ideia. O produto era de qualidade: paixão, ternura, afeto e todos os sentimentos que temperam para bem a vida do homem. E concorda comigo que o mundo está precisando de amor? O meu primo Ronald, você deve ter ouvido falar, se saiu muito bem com aquela coisa de sanduíche. Achei que iria arrebentar com o meu negócio... 

AMOR, como eu fui besta. Por inocência, consegui apenas me tornar o palhaço esfarrapado da foto acima. Ninguém sequer entrou na minha loja. Ninguém se interessou pelo que eu ofereci com tanto idealismo e confiança. Então, quando os homens vieram foi para levar tudo embora. Pouco a pouco fui entregando meus pertences para tentar me livrar das contas, ainda com esperanças de que eu poderia salvar o negócio, que iam perceber mais cedo ou mais tarde o valor do que eu oferecia. 

O golpe final veio quando finalmente os credores conseguiram arrancar de mim o coração. E sem ele, nem eu, amigo, acreditava mais nas coisas que vendia. Fui à bancarrota. Agora caminho pelas ruas, este palhaço moribundo que você está vendo, oferecendo nos sinais os estilhaços da única coisa que me sobrou. Pedaços de solidão, arrancados com as próprias mãos e caramelizado em meu pranto inútil. É o que eu estou usando para pagar os meus tragos e goles pela madrugada ressentida. Estou tentando guardar algum para um dia recuperar o meu coração. O vazio dói demais, nenhum palhaço é feliz sem o coração batendo. Sem reencontrar a alegria de viver, o que restará a mim?

18 de abril de 2008

Venha me falar de amor


Os acontecimentos a seguir se passam em uma penitenciária:

O silêncio faz parte de mim. Não falar, não discutir e somente ouvir é um preceito do sábio. Assim, um dia após o outro, entre muralhas e aço, pedras e estilhaços, vejo a vida que padece no homem do mundo. Nas noites de negra escuridão e dias de claras hostilizações, viajo nas nuvens escuras em cúmulos que me amedrontam. A noite descansa enquanto nada tenho a fazer senão pensar e enganar a mim mesmo com o propósito de que tudo está bem. Arde o meu cérebro, queimam as minhas artérias e os meus pulmões se esfolam, os pensamentos arquejantes da angústia. Olho aqui e ali. De um lado a outro me restam nada mais nada menos do que 200 centímetros quadrados para respirar e viver. 19h. A luz se apaga. Eu continuo a viagem no nimbus e só me dou conta da pedra fria quando a dor na coluna vertebral já está parecendo um câncer, tão absorto estou em meus castelos de névoa. Refletir é necessário! Regenerar é minha oração. Suplico a Deus e busco o fundo da razão, imploro o seu perdão e durmo para amanhecer entre feras enjauladas em comiseração e ferro, deleites frustrados, homens doentes, mentes embotadas de delírios funestos da ignóbil tentadora. Filhos de Deus talvez, mas trazendo o gene da maldição, o DNA de Satã, embutido em seus sacos de miséria. E o dia amanhece, turbado, obscuro:


- Não sei onde, mas... Aqui dentro? Vocês ouviram?
- Hã? O quê?
- Ouçam!
- O quê?
- Ouçam!
- Cães que ladram, tacapes batendo no chão... Lá em cima... Ouviram?
- É... É...
- Quieto pequeno, não precisa amarelar... São eles... São eles...
- Quem?
- Os hómi, meu! GERAL!
- GERAL? GERAL?
- É! Geral! Todo mundo pelado!
- Meu Deus! Meu Deus!
- Fique quieto Joramil, cacete! Pode aprontar o rabo!
- Será que é mesmo?
- Não. Fica aí dormindo com o rabo pro ar e não fica esperto não!
- Otário! Furão cabuloso! Mané, o ferro entra e você não sente.
O estrondo agora é de arrebentar. Parece uma tropa em combate, mas é o batalhão de choque, mais uma vez, para infernizar a nossa vida. Porra! Cacete! Caralho! Esses diabos outra vez? Meu Deus! Que inferno! Martírio dos diabos:
- Depressa LADRÃO! Vai VAGABUNDO! PELADO! Mão na cabeça seu PÔRRA! Vai CÁRAI!

Que cara analfa esse soldado! Não aprendeu nem falar direito o palavrão, o que se passa na cabeça de uma cria dessas? E lá vou eu, peladão de saco e bunda correndo e vendo o balanço das velas das Naus de Cabral do artesanato, amolecido de medo. Pudera, malandro! Quer ver? Experimenta! Só um pouquinho. Venha ficar de quatro pra você ver o que é que o sargento pode fazer com tu. Sem misturar as coisas, entenda; isto aqui é assunto pra diabo nenhum gostar. Depois de meia hora de barriga no chão, pintainho beliscando cimento e a canaleta do açude, como galinha do sambiquira sem pena (não é mole não, cara!), me chamam pelo nome e eu tenho que sair correndo outra vez e eles acelerando este celerado, com tapas nos lombos e gritos de índios na guerra me fazendo enlouquecer de amor por este lugar, até chegar no pequeno cubículo bagunçado. Duas horas para afrouxar os nervos e mais duas horas para arrumar tudo. Meus livros estavam no boi, minhas calças na outra jega, eu não podia abaixar pra não mostrar minhas pregas aos meus colegas. Toda essa parafernália causava ódio e desejo de vingança. Haviam espatifado tudo numa verdadeira anarquia. Agora é só raiva, ódio mesmo. O que estes caras pensam? Eles vieram para cumprir um dever de inspecionar os recintos em que as mães deles deveriam estar com a gente, ou vieram para dar pauladas, pancadas nos reeducandos e reeducar com hostilidade? É de se pensar que nos quartéis das tão brilhantes sociedades encapuzadas estão adornando esses homens com requinte de Nero, Heródes ou Pilatos, mas não posso falar nisso porque apesar de ser um Cristo expiatório da turba de criminosos impunes pela imunidade parlamentar – para não falar em máfia – tenho só alguns anos para viver e quero viver fora dessa. Eu queria mesmo é me regenerar, mas eles não querem isso. Eles querem os eu-idiotas, mentecaptos da fábrica para ficar na engenhoca deles, fazendo girar a guirlanda de flores que perfuma vossos nomes e dão aroma às suas profissões – Malditos! Mas... Acho que tudo isso foi taramelagem do Ilsson. Vou ficar de olho neste cara e não vou à aula dele nem que ele me traga a xana mais cheirosa e mais gostosa da Citylon ou da Drinacity, mostrando alguma coisa que me chame a atenção, ou venha me falar de amor.
A.S., 2004.

16 de abril de 2008

EM CARTAZ


muito tempo atrás, em uma galáxia muito muito distante:

E no meio do nada tudo ressurgiu. Da explosão de antimatéria eclodiu o último turbilhão de mentiras e a raiva obliterou a visão (ou abriu, sei lá), em um momento retornei à estaca zero, como um backup de versão antiga do Windows, lento e sistematicamente falho. E agora? QUERO RASGAR MEU PORTUGUÊS, ser o herói da minha própria história e encerrar o passado, extirpar tudo o que é sombrio e mal, o que eu suportei por tanto tempo porque achava que era isso que caras bons faziam. 


Assumir responsabilidades. Stan Lee estaria errado ou existem mesmo pessoas que não merecem ser salvas? Só sei que isso tudo já é notícia velha. Voltei à ativa. Continuarei ajudando as velhinhas a atravessar a rua, vou segurar a porta do elevador e dar bom dia a todos. Mas como diria o meu velho amigo e mentor, senhor Adair Simões, famoso estelionatário e desconhecido escritor paranaense foragido desta comarca, só não me venham falar de amor.

1 de abril de 2008

Vã filosofia

E se o mundo acabar
Para mim tudo bem
Não vou pagar a parcela
Que vence no mês que vem

Mas o que mais me incomoda
É você de novo com essa filosofia
Meu camarada tu fala demais
Mas não tem nem pra pagar a bebida

Falar até papagaio fala
Só não me diga
Que é da boemia

O verdadeiro boêmio
Labuta durante o dia
E a noite o abraça para curar suas feridas.

(Virso da caixa di fórfo)

29 de março de 2008

Por onde andei

Saudações, saudações meia dúzia de leitores assíduos deste blog empoeirado. Devem estar se perguntando, onde ele se meteu que não atualiza mais essa porra?

Pois bem. Eu gostaria de me justificar, pois eu estava viajando, fazendo a divulgação do meu mais novo filme. Que o meu bilhete da loteria esportiva teve catorze acertos e estava gastando a grana. Que o meu filho nasceu. Eu fui recrutado pela Liga da Justiça pra resolver os problemas diplomáticos de uma guerra intergalática entre Saiyajin e Skrulls na Terra 2. Estava tomando aulas de pilotagem, terminando o meu mais novo romance sem final feliz. Estava esquiando em Bariloche. Eu morri, desencarnei, conheci o inferno e vi que ele parece muito com um bar de Londrina. Estive absorto no trabalho. Entrei numa viagem transcendental com alguns vizinhos marroquinos. Fui até Aparecida de joelhos. Marquei o gol na final do campeonato alemão de Blumenau. Montei uma banda de Blues, mas não aguentei a pressão do estrelato. Fui de bicicleta até Cambé. Estive preso, mas não tinham provas e me soltaram. Namorei três mulheres diferentes ao mesmo tempo e todas queriam ter um filho meu. Perdi a minha carteira. Esqueci de avisar. Cantei aquela garota ruiva do meu trabalho. Fiquei doente. Fui à fazenda, plantei algumas mudas, agora devem estar grandes, as sementes devem ter brotado. Olhei as rolinhas nos fios de energia e lembrei do Quintana. Assisti a vários filmes, dormi na metade de outro tanto. Fui bombardeado por raios cósmicos e asas nasceram nas minhas costas. Injetei morfina na veia. Acordei no Vietnã. Ainda bem que Chuck Norris estava do meu lado. Desisti de todos os russos. Densos demais pra quem tem dda. O que vocês queriam? Um tratado explicando metafisicamente por onde eu andei? O que interessa é que voltei. 

Agora, com licença, vou cagar...

28 de março de 2008

Semisustos


Depois de certo tempo, pareciam dois estranhos. Num encontro casual, semisustos de ambos os lados. Ele havia feito a barba, ela pintou o cabelo como sempre disse que queria fazer, mas nunca fez enquanto estavam juntos. No meio da multidão no bar, "tudo bem?", a troca de olhares quase proibida e não espontânea como antes. Haviam perdido a intimidade, ela não sabia mais dos livros que ele estava lendo, ele não sabia que ela finalmente estava fazendo as aulas de inglês. 

A música alta que vinha da boate impediu qualquer tentativa de diálogo, no passado talvez se tornasse mais uma das músicas deles, esta noite, nunca mais. O beijo frio no rosto decretou o fim do reencontro, triste e efêmero como a madrugada dos vagabundos. Qualquer dia alguém vai escrever esta história do jeito que cada um viu. Falar do amor que ele tinha, do medo que ela guardava, do ressentimento deles, da inocência sendo maculada pouco a pouco pela fórmula açucarada e grudenta dos dias que passaram, premeditando tudo como aconteceu hoje. Um carnaval mudo, sem estampidos nem confissões de amor.